A tenebrosa lista de furos em Travessia continua ganhando novas páginas e acumulando reclamações dos espectadores a poucos dias do segundo "mesversário" da obra de Glória Perez. Brisa (Lucy Alves) e Oto (Romulo Estrela) garantem a única química interessante na novela, mas não conseguem desviar da falta de lógica em trechos cruciais do roteiro ou da alucinação coletiva do enorme montante de vilões.
Desde os primeiros capítulos, o público já reclamava das inconsistências narrativas na construção da protagonista, uma mulher inteligente, romântica, honesta, batalhadora e, de alguma forma, incapaz de utilizar a tecnologia ao seu favor. A tal "deep fake", apontada como grande fio condutor para as discussões sociais da trama antes da estreia, virou uma banalidade adolescente responsável pelo verdadeiro foco de Glória Perez: a briga judicial entre Brisa e Ari (Chay Suede).
Ao ler a palavra "adolescente", você já deve ter se lembrado da figura irritante de Rudá, outra grande decepção no folhetim, afinal são vários os questionamentos sobre as ações e reações do personagem. Filho de Guida (Alessandra Negrini) e Moretti (Rodrigo Lombardi), mais dois talentos gigantes desperdiçados pela displicência do texto, o garoto provavelmente terá sua hora de responder pelos erros, mas o que impressiona mesmo não é a demora no desenvolvimento do núcleo.
O pior problema de Travessia é a oposição à lógica, afinal o intuito da obra gira em torno do chamado "metaverso" e os potenciais perigos do avanço tecnológico para a convivência humana. O primeiro exemplo já estava inserido nas chamadas e já foi executado por Rudá através de uma montagem grosseira de Brisa "sequestrando uma criança".
Em seguida, a novela insere um robô garçom chamado Haroldo para transformar a vida de Joel (Nando Cunha) em um inferno. O marido de Marineide (Flávia Reis) começa a perder gorjetas para uma máquina e entra em uma jornada pesada para manter a renda familiar.
Nada disso parece muito perspicaz em uma novela que tinha absolutamente tudo para abordar o terror das fake news no Brasil, ponto alto das últimas duas eleições presidenciais. Para piorar, até os bastidores de Travessia são turbulentos, seja pela repulsa da maioria esmagadora da equipe às falas preconceituosas de Cássia Kiss, intérprete de Cidália, ou o nítido climão entre os integrantes do elenco.
Alexandre Nero, que dá vida ao extravagante Stenio, já curtiu um post zombando de Jade Picon e apagou rapidamente após a repercussão dos internautas; parte do elenco exigiu o afastamento de Cássia Kiss pelas falas homofóbicas e participação em ato antidemocrático; o diretor Mauro Mendonça Filho não consegue organizar as ideias rasas propostas por Perez; e vários outros pontos específicos detalham a dificuldade da talentosa equipe em conviver com o fracasso.
E por falar em Stenio, o que foi esse sequestro? O desaparecimento do advogado nas últimas semanas foi mais uma artimanha desnecessária em uma trama com tantos pontos excelentes para abordar, sobretudo pela descoberta quase milagrosa de Helô (Giovanna Antonelli), que moveu o céu e a Terra em poucas horas para descobrir o paradeiro do ex-marido.
No balanço atual, Travessia prefere abordar questões "inéditas" na TV para obter novas conquistas, como a demissexualidade de Caíque (Thiago Fragoso), o novo pretendente de Leonor (Vanessa Giácomo), ou o clichê de robôs contra humanos como uma espécie de teste distrativo em um núcleo secundário.
É difícil listar todos os furos de Travessia, portanto vamos parar por aqui e aguardar pelo desenvolvimento do folhetim nos próximos meses, pois as próximas semanas também serão sofríveis, com o ódio descontrolado de Moretti, a separação forçada entre Brisa e Oto e os ataques nervosos de Ari ao lado de Chiara, além dos discursos resmungados de Guerra (Humberto Martins), que receberá a visita de um fantasma do passado.
Como sempre, o time Diário 24 Horas continua a postos para captar todos os detalhes de Travessia, esperando por uma rápida recuperação. Será que a novela consegue sair da UTI?

