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Projetos do Governo do Pará ampliam o acesso ao livro e à leitura

Diário 24 Horas
Atualizado há quase 5 anos
Projetos do Governo do Pará ampliam o acesso ao livro e à leitura

Focado em promover a democratização do acesso ao livro e o fomento à leitura, o Governo do Pará tem formulado diversos programas, planos e ações nesse campo. Grande exemplo é a Feira Pan-Amazônica do Livro, que, neste ano, chega à 17ª edição, acontecendo, pela primeira vez, no primeiro semestre do ano, entre os dias 26 de abril e 5 de maio, no Hangar Centro de Convenções e Feiras da Amazônia. No ano passado, o evento – promovido pela Secretaria de Estado de Cultura (Secult) e considerado um dos maiores do gênero no Brasil – registrou mais de 400 mil visitantes, venda de 793 mil livros e movimentação de R$ 14,2 milhões em negócios. A expectativa da organização é que, em 2013, esses números sejam superados.

Um dos órgãos estaduais que mais tem se destacado dentro dessa política é a Fundação Cultural do Pará Tancredo Neves (FCPTN). A entidade coordena duas ações fundamentais dentro de um programa do Governo do Pará intitulado “Pará que lê”, que objetiva, justamente, a formação de leitores: a implantação e dinamização de espaços de leitura.

De acordo com Guilherme Relvas, da gerência de Promoção à Leitura da FCPTN, a Fundação, através do Sistema Estadual de Bibliotecas, tem trabalhado em parceria com o governo federal na implantação de bibliotecas por todo o Estado. Nos últimos dois anos, foram 45, zerando, assim, o déficit desse tipo de espaço no Pará. Hoje, todos os 144 municípios do Estado contam com pelo menos uma biblioteca pública.

A partir daí, o próximo passo é a modernização e dinamização dos espaços, com consequente incentivo à leitura e à aproximação do público, por meio de oficinas, treinamentos e ações pontuais, como a “Caravana da Leitura” e “Ônibus Biblioteca”. “Quando entregamos um espaço como uma biblioteca a algum município do interior, percebemos a carência e a festa que as pessoas fazem. É que em muitos desses lugares não havia nenhum equipamento cultural voltado para a leitura, nem mesmo uma banca de revista. O mesmo acontece com as ações de estímulo à leitura, como oficinas, pois vemos que as pessoas anseiam por essas atividades, que são prazerosas, lúdicas e preenchem uma lacuna que normalmente existia”, destaca Guilherme.

A mesma lógica segue o projeto “Livro Solidário”, desenvolvido pela Imprensa Oficial do Estado (Ioepa). Idealizada pela primeira dama do Pará, Ana Jatene, a iniciativa nasceu em 2004 e foi retomada em 2011. A ideia consiste na arrecadação e doação de livros para associações, projetos do Governo do Estado e implementação de espaços de leitura.

Segundo a coordenadora do trabalho, Lucila Girão, na primeira fase do trabalho foram implementados quatro espaços de leitura em Belém, em associações e escolas. Agora, está sendo realizado um monitoramento e diagnóstico desses locais, para saber de que forma o trabalho está funcionando. Além disso, a entidade também desenvolve o projeto “Carrinhos de leitura”, que leva as publicações para perto de pacientes internados em hospitais da rede pública de saúde.

“Para tudo isso, precisamos contar com a ajuda da sociedade civil. Recebemos doações de livros na Ioepa, todos os dias, até às 14h. As pessoas que desejarem podem entregar os livros na portaria do prédio. Nós recebemos, fazemos a seleção e encaminhamos para esses projetos”, explica Lucila.

No início de 2013, em parceria com o Ministério da Cultura e Fundação Biblioteca Nacional, o Instituto de Artes do Pará (IAP) sediou a primeira edição do projeto Caravana de Escritores 2013, “A escrita e a voz – Diálogos sobre a literatura contemporânea”, que reuniu, em Belém, os escritores Bráulio Tavares (da Paraíba), Paulo Henriques Britto (do Rio de Janeiro) e o paraense João de Jesus Paes Loureiro.

A iniciativa teve como objetivo falar sobre literatura e promover o intercâmbio entre escritores de fora e locais e, de ambos, com o público. “Esse é um dos maiores projetos literários do Ministério da Cultura e o IAP foi o escolhido aqui em Belém para receber a iniciativa. Vamos fazer a caravana durante o ano todo e esperamos que as atividades se repitam de dois em dois meses”, informa o gerente geral de artes literárias e expressão de identidade do IAP, Tito Barata.

Projetos Governo do Pará

Literatura

Em Belém, o projeto teve início com a palestra “Literatura fantástica no Brasil”, com o escritor, poeta e compositor paraibano Bráulio Tavares, morador do Rio de Janeiro. Entusiasta e pesquisador há 30 anos da chamada literatura fantástica de ficção científica, ele citou a obra “Viagem a Andara, o livro invisível”, do paraense Vicente Cecim, como exemplo desse gênero.

“Existe um certo preconceito em relação à ficção científica porque as pessoas normalmente acham que isso é coisa de cinema, não da literatura, e dos americanos, não dos brasileiros. Mas eu pertenço a um grupo de pesquisadores que está, aos poucos, desenterrando a literatura brasileira fantástica de ficção científica. Existe uma produção não só aqui no Brasil, como também no Oriente, nos países islâmicos, na África negra e a gente muitas vezes não sabe disso porque a ficção científica norte-americana acaba se sobrepondo a tudo. O meu trabalho é, então, mostrar as outras faces da ficção científica”, afirma.

O segundo dia do evento foi marcado pela palestra “Poesia brasileira hoje”, ministrada pelo tradutor profissional de inglês, poeta, ensaísta e professor universitário carioca Paulo Henriques Britto. Ele falou sobre a poesia contemporânea produzida no Brasil e, em especial, sobre a chamada geração 00, que se refere aos poetas que começaram a publicar a partir dos anos 2000.

O professor acredita que a poesia, como outros gêneros literários, ainda é pouco consumida no Brasil em função, principalmente, da falta de investimentos em educação. “O Brasil não aprendeu nada com o que vimos acontecer nos anos 80, quando países como Coréia do Sul, Taiwan e Cingapura se tornaram verdadeiras potências em pouquíssimo tempo, investindo basicamente em educação. Claro que é muito mais simples fazer isso num país pequeno, mas, de qualquer modo, não estou vendo esse grande esforço no Brasil. A gente só vai conseguir realizar o nosso potencial quando a população tiver uma instrução melhor”, defende.

Já o paraibano Bráulio Tavares ressaltou a importância do acesso às bibliotecas no processo de formação e consolidação de leitores. Para ele, é fundamental não apenas abrir os espaços, mas mantê-los atualizados, para que o público possa estar sempre interessado. “Não adianta dizer a jovens e crianças que é importante ler se os pais delas não têm dinheiro para comprar livros ou se as bibliotecas não funcionam, não têm dinheiro para atualizar os seus acervos. O leitor que lê alguma coisa de graça na biblioteca depois quer comprar o livro para ter em casa, porque é um prazer ter em casa um livro que a gente gosta muito”, observa.

O analista de sistemas Eduardo Neves acompanhou os debates e destacou a necessidade de iniciativas como essa. “É uma grande oportunidade para podermos ver de perto pessoas que a gente admira e interagir com elas, tocando experiências. Estimula a gente a escrever mais, pesquisar mais. Eu gostaria que projetos como esse existissem sempre”, conclui.

Oficinas

O incentivo também pode vir na forma de oficinas. É o que faz, por exemplo, a Casa da Linguagem, entidade ligada à Fundação Curro Velho, que oferece cursos voltados, principalmente, para estudantes de ensino médio, universitários e apaixonados por literatura em geral. As oficinas acontecem por módulo e têm duração, em geral, de 30 horas.

Gratuitos para alunos de escolas públicas, os pequenos cursos têm como foco a leitura e a produção de textos. “O nosso público, em sua maioria, é formado por alunos de escolas públicas, que utilizam as oficinas para melhorar na escola, para se preparar para um concurso público, como é o vestibular, e para ter um contato diferenciado com o ensino, porque são turmas pequenas, de no máximo 20 alunos, com instrutores que não estão presos à sala de aula”, ressalta o gerente de linguagem verbal da Casa, Jair Melo.

Segundo ele, o trabalho também representa uma oportunidade para os jovens professores, recém-formados ou em processo de formação, que aproveitam a experiência para entrar no mercado de trabalho. “É um grande laboratório de experimentação para onde eles podem trazer tudo o que aprendem nas teorias, sobretudo o que diz respeito aos autores paraenses, pois é com eles que trabalhamos preferencialmente”, cita, acrescentando que, ao final de cada oficina, os alunos devem apresentar uma atividade final, que normalmente é uma exposição, uma leitura dramatizada ou até um sarau de poesias.

O técnico e professor Wilson Morais, que já foi instrutor de oficinas na entidade, diz que, em geral, o interesse é muito grande pelas oficinas que envolvem a produção de texto. O que muita gente esquece, no entanto, é que a redação está diretamente ligada à leitura. “Sem leitura, não se desenvolve a escrita de jeito nenhum. Costumo dizer aos meus alunos que ninguém aprende a escrever fazendo curso de redação, mas sim, lendo. Você pode até fazer uma redação todos os dias, durante um ano, mas, se não ler nada durante esse período, ao final, sua redação não terá melhorado. Vejo que, na Casa da Linguagem, se consegue dar esse impulso a muitos jovens, para que procurarem a leitura. Até porque ninguém vem para cá obrigado, não tem prova, nada disso. A gente observa que muitos saem das oficinas e vão para a biblioteca, o que já é um grande passo”, enfatiza.

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