Após o sucesso da primeira parte, “Ninfomaníaca – Volume 2” estreia nos cinemas dando sequência a polêmica obra de Lars von Trier estréia nesta quinta-feira no Brasil. Somadas, as duas partes, na verdade um só filme, têm pouco mais de quatro horas de duração. A versão que está em cartaz no Brasil foi autorizada por Von Trier, mas não é a integral. Esta não possui cortes e tem cinco horas e meia de duração.
O filme requer do espectador, obviamente, ter assistido ao volume 1, tanto por isso o Cine Belas Artes voltou a exibir em somente um horário a primeira sequência. O longa também exige certo nível de nervos de aço, pois o que no primeiro tão exposto e cansativo, o segundo busca esconder. Volume 1 termina com um mashup dos melhores momentos do volume 2: cenas quentes, incluindo lesbianismo, ménage à trois e S&M. Se for ao cinema com esse olhar, esqueça. Há muito menos cenas explícitas que o anterior, pois o propósito é mostrar a protagonista em fase de aceitação e evolução em seu “vício”.
Joe voltana idade adulta cortando, pouco a pouco, todos os laços com o mundo “convencional”. A mulher que na juventude fazia campeonato para ver quem obtinha mais relações mais perdeu, já madura, tem toda a sensibilidade. Arrisca absolutamente tudo para tentar recuperá-la, inclusive o próprio filho, em cena que os fãs de Von Trier vão associar facilmente com 'Anticristo' (2009).
Dividida em capítulos, a narrativa traz agora os de número 6 a 8, novamente pródigas em referências, que vão sendo apresentadas pelo ouvinte Seligman à medida que a narradora Joe as apresenta. Se antes as metáforas envolviam música erudita e pescaria, agora elas são religiosas. Joe, quando tem um orgasmo, acredita ter visto a Virgem Maria. Não, ensina Seligman, a imagem é a de Valéria Messalina, imperatriz romana também uma ninfomaníaca.
É a interpretação da atriz Charlotte Gainsbourg que vai envolvendo o espectador a acompanhar o drama – dimensão muito maior do que a conseguida por Stacy Martin, que faz a jovem Joe na primeira sequência.
Duas cenas explicitam a entrega da atriz. Joe, em busca do prazer perdido, começa a se “consultar” com K. O tratamento? Cenas ininterruptas de sadomasoquismo, em que ela, amarrada, leva chibatadas até o limite do possível (ganha de presente 40, uma a mais do que Jesus Cristo, mencionará mais tarde Seligman). Em outro momento, vemos novamente Joe em ação conseguindo arrancar, de um homem emboscado, uma confissão inconfessável: pedofilia. Compungida pela entrega, Joe protagoniza uma cena de felação que choca não somente o espectador, mas o próprio personagem.
Certamente a sequência não deve causar tanto impacto e polêmica quanto o primeiro justamente por ser uma sequência e quem já assistiu ter uma noção do enredo e como o longa se padroniza e forma as cenas, porém ainda há muito pulso firme a ser testado pelos espectadores que irão assistir ao mesmo em cenas nem tão comuns fora das telonas convencionais com práticas de sadomasoquismo.

