Mozart não teve concorrência. Dominou a noite. A qualidade dos músicos da Arte del Mondo e a interpretação amadurecida transformou a "Sinfonia 29" em um clarão luminoso de sutilezas - é isso, justamente, que faz a diferença entre a execução burocrática e a de exceção. Um brilho registrado nos dois concertos. De novo, Mozart parecia léguas à frente de Mendelssohn, invertendo a distância histórica de quase meio século que as separa.
O menino Mendelssohn espelhou-se no concerto para violino à francesa; o adolescente Mozart abriu sua série de concertos para o instrumento seguindo o estilo galante. A precisão e virtuosismo de Daniel Hope são incontestáveis, mas os momentos memoráveis ficaram com os andamentos lentos: o Andante precioso em Mendelssohn, o Adagio emocionante em Mozart. Com música e performance de tamanha qualidade, empalideceu a serenata para cordas de Elgar.
No concerto de quinta, Hope e a Arte del Mondo interpretaram a "transcrição" das "Quatro Estações" de Vivaldi pelo compositor contemporâneo Max Richter. Contemporâneo só porque está vivo. Na verdade, os marqueteiros da Deutsche Grammophon sacaram que a crise da indústria do disco se deve ao suposto fato de que hoje as pessoas não têm mais tempo para ouvir obras longas, como as do concerto de quarta. Encomendaram a Richter pílulas de 2 a 4 minutos condensando clichês barrocos e românticos. Quebraram a cara com o CD. Repetem agora a dose em escala maior. Pra que "recriar" hipocritamente Vivaldi? A Universal lançou o CD "Recomposed by Richter" esta semana, no Brasil. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
