A onda de movimentos contra os assustadores relatos de assédio sexual em Hollywood ganharam notável força, que inclusive abriram espaço para uma coragem cada vez maior das vítimas, até mesmo aquelas que passaram por sufocos antigos, como é o caso de Regina Simons, figurante que acusou Steven Seagal de estupro, 25 anos após o ocorrido. Outro caso, por exemplo, é o de Aziz Ansari, astro de Master of None, que teria abusado sexualmente de uma fotógrafa no ano passado, lembrando que ele acabou de ganhar um Globo de Ouro pelo seu trabalho no seriado e utilizava o broche da campanha contra assédio durante a entrega dos prêmios.
Um caso à parte ficou por conta de uma carta aberta veiculada pelo Le Monde. A publicação defendia a "liberdade de importunar" como prerrogativa principal para o que foi chamado de liberdade sexual. Obviamente as reações foram extremamente negativas, sobretudo porque o artigo considerava os movimentos e os depoimentos recentes como uma "onda de puritanismo". Catherine Deneuve era uma das pessoas que assinava a carta e, após as críticas, aproveitou para publicar uma outra carta, desta vez no Libération, pedindo desculpas às vítimas de abusos sexuais.
Logo no início da publicação, a atriz, conhecida por A Bela da Tarde, afirma que já foi acusada de não ser feminista diversas vezes. "Preciso lembrar a vocês que sou uma das 343 vadias, junto a Marguerite Duras e Françoise Sagan, que coassinaram o manifesto Eu Fiz um Aborto escrito por Simone de Beauvoir?", esbraveja a atriz, com certa arrogância, mesmo em um pedido de desculpas. "Eu saúdo fraternalmente todas as vítimas de atos odiosos que podem ter se sentido agredidas pela tribuna publicada pelo Le Monde. Apresento minhas desculpas para elas, e somente para elas", garante Deneuve, que também fez um esclarecimento sobre a tribuna. "Sim, eu amo a liberdade. Não gosto desta característica dos nossos tempos onde todos se sentem no direito de julgar, de arbitrar, de condenar. Uma época onde simples denúncias nas redes sociais engendram punições, demissões e, constantemente, linchamentos midiáticos", prosseguiu a atriz, que não considera justo condenar grandes obras artísticas com base nas atitudes de seus criadores, citando Leonardo da Vinci, Phil Spector, Egon Schiele, entre outros.

