A política brasileira foi moldada em casos de corrupção, lavagem de dinheiro, mortes misteriosas, sobreposição de poder, entre outros esquemas ilícitos e imorais. A elite da era colonial no Brasil já praticava atos como nepotismo e enriquecimento indevido, demonstrados em várias obras históricas e literárias brasileiras, comprovando, para aqueles que ainda duvidam, que não foram os partidos políticos que inventaram a corrupção. O jogo político é sujo há décadas, séculos, ceifando vidas em diferentes lugares do país, umas mais às claras e outras de maneira mais sórdidas, como aconteceu com a vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco, e seu motorista, Anderson Gomes, em 2018.
Ao sair de seu último compromisso como figura pública, Marielle só desejava ir para casa, como qualquer pessoa após um dia de trabalho, mas teve seu caminho interrompido. O mesmo para Anderson, que era aguardado pela família. Mas eles não chegaram, foram tirados de suas rotas rumo ao desconhecido por nós que ainda estamos vivos.
Marielle, antes de sua morte, já era um símbolo de luta, de resistência, de frescor político, fora do padrão da elite econômica e política brasileira: era negra, vinda da periferia, mulher, mãe e lésbica. Um acinte aos moralistas! Anderson, por sua vez, não era um político, nem uma pessoa reconhecida por seus feitos à democracia, era um trabalhador, casado e pai, mas nem por isso menos batalhador ou revolucionário. Como todo bom brasileiro, estava em seu horário e local de trabalho, provendo seu lar.
Suas mortes não mudaram apenas o cotidiano de suas famílias, suas mortes chacoalharam o país após uma pergunta simples e ao mesmo tempo tão difícil: Quem mandou matar Marielle e Anderson? Sim, quem mandou e não apenas como morreram. Não foi o caso de mais um acidente de trânsito, até certo ponto comum no Brasil, se tratou de um assassinato, com mandante e destino certo.
Nestes dois anos já vivenciamos vários atos em prol desta resposta, como entrevistas, reportagens, passeatas, manifestações, brigas, placas quebradas… Até mesmo o capitalismo se apropriou da imagem da vereadora, virou camiseta, botton, documentário em streaming pago… Tantas coisas, tão poucas respostas.
Nestes dois anos tanta coisa aconteceu e muitas outras ainda estão por vir, e tudo sem a resposta para a pergunta tão simples e tão difícil. Quem mandou matar Marielle e Anderson? Infelizmente já estão mortos, mas poderiam estar vivos, e se estivessem, creio que muitas respostas já teriam dado. O trabalho de Marielle por si só era uma resposta às dificuldades da vida do brasileiro, com o combate às milícias, acolhimento de crianças, campanhas contra o assédio, atendimento público às mulheres, combate à homofobia, e tantas outras respostas que ela elaborava.
Já Anderson tinha as respostas para a sua família, seu dia-a-dia, garantindo qualidade de vida à esposa e ao filho, que nascera com malformação. Trabalhava há poucos meses com Marielle, tinha habilitação para motorista de Uber. Um sopro de vida, como todos os que acordam pela manhã e vão trabalhar, voltam à noite e descansam para o próximo dia. Esta era a sua resposta.
Agora, com eles já longe deste plano há dois anos, restam as suas famílias uma resposta. Os defensores de Direitos Humanos e contra o velho jogo político se mantém ameaçados no Brasil e pouco, ou quase nada, é feito para mudar este cenário, mostrando que na verdade a política brasileira não foi moldada em da corrupção e escândalos, como citado no início, mas sim andam lado a lado, são amigas e mantêm as coisas como querem, com morte. E, infelizmente, esta parece ser a resposta para hoje.

