A dura saga do professor que arrisca tudo para levar educação a alunos indígenas em RR

Professor macuxi percorre 30 Km, atravessa igarapés e estradas inundadas para imprimir atividades aos estudantes
Professor macuxi percorre 30 Km, atravessa igarapés e estradas inundadas para imprimir atividades aos estudantes
PorMarcos Henderson06/08/2020 11h59

Somente no dia 10 de maio de 2017, foi sancionada a Lei nº 1.180/17 que celebra o Dia Estadual dos Professores Indígenas, comemorado no dia 28 de julho em Roraima, em homenagem à data de nascimento da professora macuxi Natalina da Silva Messias, que morreu em 2015, aos 57 anos. O reconhecimento pelos esforços de diferentes povos nativos espalhados por várias regiões brasileiras ainda caminha a passos curtos, o que reflete nas condições ainda precárias que várias comunidades precisam enfrentar em pleno 2020. 

A psicóloga e professora Glycya Ribeiro aproveitou a data comemorativa no final de julho para mostrar a realidade da comunidade Matiri na região Raposa, município de Normandia, em Roraima. Em uma foto tirada em 25 de junho, o professor macuxi e gestor de escola indígena Telmo Ribeiro, pai de Glycya, aparece caminhando em um igarapé com água até o pescoço após uma dura saga de mais de 30 quilômetros para imprimir atividades para alunos indígenas. 

Telmo Ribeiro e estudantes na comunidade Matiri, na região Raposa
Telmo Ribeiro e estudantes na comunidade Matiri, na região Raposa
Telmo Ribeiro e estudantes na comunidade Matiri, na região Raposa

"Todos os anos enfrenta barreiras assim por seus alunos, e, neste em específico, também uma pandemia", disse a professora na legenda da publicação, utilizada com o intuito de abrir os olhos das pessoas. "Será que quando você fala: 'TO DANDO VISIBILIDADE PRA QUEM TÁ NA ALDEIA' você realmente está fazendo? Cadê as fotos e manchetes dos heróis do dia a dia?", continua, também questionando as doações online e outras medidas que, no final das contas, talvez só sirvam para inflar o ego daqueles que acreditam fielmente que estão contribuindo para um mundo melhor ao "fazer sua parte". 

"E sociedade, não podemos nos limitar à doações online, muitas vezes nem é isso que precisamos. Precisamos de apoio do estado, precisamos de transportes aéreos ou fluviais que nos ajudem a atravessar estradas assim em épocas de chuva por ex. Precisamos que você cobre as autoridades junto conosco, que você realmente chegue junto e diga: eu tô aqui. Sem medo de retaliação", disse Glycya, expondo a precária situação enfrentada pelos povos indígenas em relação a saúde, educação, segurança e até da demarcação de territórios. 

A escola que recebe o material sofrido de Telmo e mais cinco professores que o auxiliam na saga para impressão das atividades atende estudantes indígenas de outras três regiões dentro da reserva Raposa Serra do Sol. Telmo caminha, pedala, pilota uma moto e atravessa igarapés cheios e estradas inundadas, sem nenhum barco à disposição. 

O professor, formado em Comunicação e Arte pela Universidade Federal de Roraima (UFRR), não mede esforços para levar educação a crianças e adolescentes do 6º ao 9º ano, enquanto uma grande parcela da população brasileira amanhece apontando inúmeros defeitos de suas instituições particulares e problemas nas plataformas de Educação a Distância (EaD). 

É preciso entender as disparidades e as injustiças que acontecem de forma oculta aos nossos olhos. Afinal, essas comunidades estão espalhadas pelo país, e sequer têm chance de entregar educação às crianças com dignidade e segurança. Determinados, eles farão o que for preciso para proteger seus povos, custe o que custar. 

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Sobre o autorMarcos Henderson
Publicitário, músico e, aqui, escrevo sobre o que as diferentes culturas têm a nos dizer. Como artista, celebro a força da arte e conto histórias do entretenimento. Twitter: @marhoscenderson