O Supremo Tribunal Federal recebe nesta terça-feira (8) uma das peças mais sensíveis do caso Banco Master. Está marcada para as 14h, no gabinete do ministro André Mendonça, relator do caso na Corte, a audiência que vai avaliar a delação premiada de Antonio Carlos Freixo Júnior, o "Mineiro" — o empresário apontado pela Polícia Federal como o operador financeiro de Daniel Vorcaro.
A audiência é a etapa que antecede a homologação. Nela, o STF verifica três coisas: se o delator colaborou de forma voluntária, se o acordo é regular e se ele é legal. Só depois de homologado é que o material passa a valer como prova e pode ser usado formalmente na investigação. Sem essa chancela, nada do que o Mineiro contou produz efeito jurídico.

Sete pagamentos, US$ 12,3 milhões e um fundo no Texas
O que o empresário já contou à Procuradoria-Geral da República é pesado. Segundo apuração da colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo, o Mineiro confirmou ter feito sete transferências bancárias ao longo de 2025 para o Havengate, fundo sediado nos Estados Unidos e administrado pelo advogado de imigração Paulo Calixto, apontado como próximo de Eduardo Bolsonaro.
As parcelas saíram entre fevereiro e setembro de 2025 e somaram US$ 12,3 milhões — cerca de R$ 69 milhões no câmbio da época. Todas teriam sido feitas a pedido de Vorcaro, dono do Banco Master. A sétima e última, de US$ 1,66 milhão (aproximadamente R$ 9 milhões), tinha sido revelada pela revista piauí a partir de relatórios do Coaf.
O Havengate é o fundo que bancou o filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro centrada na campanha de 2018 e no episódio da facada. A estreia da produção, segundo a apuração, ficou prevista apenas para depois das eleições deste ano.
Uma das frentes da investigação da PF e da PGR quer descobrir se esse dinheiro foi mesmo só para o filme — ou se também ajudou a bancar a permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. O ex-deputado se mudou para o Texas em fevereiro de 2025, alegando perseguição política no Brasil. O primeiro pagamento ao fundo saiu no mesmo mês.
Malas de até R$ 1,5 milhão e um ex-ministro citado
A delação vai além do filme. O Mineiro relatou aos investigadores que era o responsável por gerar dinheiro em espécie e entregá-lo, em malas, a pessoas indicadas por Vorcaro. Segundo apuração do g1 e da Folha de S.Paulo, ele teria movimentado cerca de R$ 1,3 bilhão para o banqueiro entre 2020 e 2025, com malas que chegavam a R$ 1,5 milhão cada.
Ele contou ainda que recorria a outros operadores capazes de disponibilizar grandes volumes de dinheiro vivo, e que esses intermediários cobravam 4% pelo serviço. Afirmou ter vídeos que registram as entregas e citou um ex-ministro do governo Bolsonaro como um dos receptores, conforme revelou o colunista Igor Gadelha, do Metrópoles. O delator disse, porém, não saber qual era a finalidade dos repasses nem o destino final de boa parte dos recursos que gerou.
O acordo foi fechado com a PGR em 8 de agosto, após quatro meses de negociação, e prevê o pagamento de cerca de R$ 2 bilhões em multa. É a segunda colaboração premiada firmada no caso Master. A primeira foi de João Carlos Mansur, ex-dirigente do grupo Reag, que se comprometeu a apontar caminhos para localizar R$ 20 bilhões — a audiência dele já ocorreu, mas Mendonça ainda não publicou a decisão.
O próprio Vorcaro tentou fechar delação duas vezes e foi recusado pela PF e pela PGR. Sua nova defesa mudou de estratégia no fim de agosto e passou a apostar na contestação técnica e na tentativa de anular provas.
O rastro: Brasil, Bahamas, Texas
O Mineiro é dono da Entre Investimentos e Participações e atuou como CEO do grupo Entrepay. A PF já apontava, antes mesmo da delação, que a Entre funcionava como braço operacional de Vorcaro para movimentar recursos.
Técnicos do Banco Central identificaram um fluxo atípico de dinheiro saindo da Entrepay: os valores deixavam o Brasil, passavam pelas Bahamas e seguiam para o Texas. A Entrepay teve a liquidação extrajudicial decretada pelo BC em março deste ano. As autoridades agora apuram se houve evasão de divisas.
A conta do filme que não fecha
Há outro flanco aberto. Uma perícia privada contratada pela Go Up Entertainment, produtora de Dark Horse, calcula que o filme custou US$ 13,39 milhões — R$ 75,18 milhões na cotação usada pelo perito. Desse total, 72% dos gastos ocorreram nos Estados Unidos e apenas 28% no Brasil. Das cinco fases do projeto, só a de filmagens foi feita em território brasileiro.
O item que mais chamou atenção foi a chamada "soft production", etapa logística e administrativa anterior à pré-produção: US$ 2,69 milhões, algo em torno de 20% do orçamento. Profissionais do audiovisual ouvidos reservadamente pela coluna de O Globo estranharam o número — a média de mercado para essa etapa fica entre 3% e 5%.
No mês passado, a PF cobrou da produtora esclarecimentos sobre aspectos financeiros, contratuais e operacionais do longa. A resposta foi entregue na última sexta-feira (4). A Go Up nunca lançou nenhum filme nos cinemas brasileiros.
O peso eleitoral
O caso Dark Horse já vinha cobrando um preço da campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência. Foi o senador quem alinhou com Vorcaro o patrocínio ao filme, segundo as investigações. A crise ganhou corpo depois que o Intercept Brasil publicou mensagens em que ele aparece cobrando dinheiro do banqueiro para a produção.
Flávio chegou a prometer que apresentaria as contas da obra. Depois mudou o discurso, tentou se descolar do episódio e passou a tratar o assunto como "página virada". Ele também afirmou que o último repasse de Vorcaro tinha sido em maio de 2025 — versão desmentida pelos relatórios do Coaf revelados pela piauí, que mostram uma transferência em setembro daquele ano, dois meses antes da prisão do banqueiro.
Uma audiência no meio da guerra do STF
A oitiva desta terça acontece no pior momento possível para o Supremo. Ainda nesta manhã, o mesmo Mendonça determinou o afastamento preventivo do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada da Costa, alegando ter sido alvo de monitoramento sistemático e ilegal da corporação. A decisão foi submetida a referendo da Segunda Turma em sessão virtual que vai até as 23h59.
Ou seja: o ministro que decide hoje sobre a delação do operador de Vorcaro é o mesmo que, horas antes, afastou o comando da polícia que investiga o caso. Kassio Nunes Marques e Luiz Fux já anteciparam voto e formaram maioria em favor do relator ainda pela manhã. Gilmar Mendes havia pedido vista antes disso.
Tudo isso se soma à crise aberta em 1º de setembro, quando Mendonça levantou o sigilo de relatórios da PF que expuseram mensagens entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes. Desde então, os dois ministros protocolaram pedidos de investigação um contra o outro, e o presidente do STF, Edson Fachin, trouxe os dois procedimentos para a Presidência da Corte, com prazo até sexta-feira (11) para manifestações. Nesta terça, 13 ministros aposentados e ex-presidentes do tribunal divulgaram carta a Fachin pedindo resposta institucional ao que classificaram como a mais aguda crise da história da Corte.
Entenda o caso Master

O Banco Master cresceu vendendo CDBs com rendimentos muito acima da média do mercado, usando a garantia do Fundo Garantidor de Créditos como argumento de segurança. Em novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da instituição, e Vorcaro foi preso na pista do aeroporto de Guarulhos quando se preparava para deixar o país.
O episódio virou o maior acionamento da história do FGC: cerca de R$ 40,6 bilhões em garantias para aproximadamente 800 mil credores só no Master, depois que o fundo consolidou a base. Somados o Will Bank e o Banco Pleno, a conta chega a R$ 51,8 bilhões. A Operação Compliance Zero, da PF, apura fraudes estimadas em R$ 60 bilhões. Além de Daniel Vorcaro, seu pai, um primo e um cunhado também foram presos.
O outro lado
Alexandre de Moraes já divulgou notas negando relação com Vorcaro e afirmou não ter recebido as mensagens atribuídas a ele. André Mendonça afirmou que se reuniu com o banqueiro em 2025 para tratar de um processo sobre precatórios, mas que apenas o ouviu e depois votou contra a posição defendida por ele. A defesa de Freixo Júnior informou que não se manifestaria porque a investigação corre em sigilo. A defesa de Vorcaro disse não ter acesso à proposta de delação. Flávio Bolsonaro nega irregularidades no financiamento do filme, e Eduardo Bolsonaro, procurado por outros veículos, não se manifestou. O Diário 24 Horas mantém os canais abertos para manifestações das partes citadas.
Reportagem em atualização.
