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Menina de 13 anos que saiu de casa para viver com namorado virtual é achada trancada em barracão em Anápolis

Polícia Civil de Goiás encontrou a adolescente em imóvel abandonado fechado por fora com corrente e cadeado, três dias após ela deixar uma carta de despedida. Jovem de 19 anos foi preso por estupro de vulnerável e cárcere privado

Bruna Pinheiro
Menina de 13 anos que saiu de casa para viver com namorado virtual é achada trancada em barracão em Anápolis
Cativeiro onde adolescente foi resgatada pela polícia em Anápolis. Foto: Divulgação/Polícia Civil

Uma adolescente de 13 anos desaparecida desde a madrugada de domingo (6) em Anápolis, a 55 km de Goiânia, foi encontrada na tarde desta quarta-feira (9) dentro de um barracão abandonado, trancado por fora com corrente e cadeado. Os policiais precisaram arrombar a entrada para tirá-la de lá. Um jovem de 19 anos, apontado como responsável por convencê-la a sair de casa, foi preso em flagrante e autuado por estupro de vulnerável e cárcere privado.

A história que circulou nos primeiros dias era outra. A menina deixou uma carta dizendo que estava indo embora com alguém que amava, que não sabia se voltaria e pedindo que a irmã a deixasse viver a vida. Amigas relataram que ela conversava havia meses, pelo Discord, com um homem que se apresentava como tendo 28 anos e prometia levá-la para morar no Canadá. Praticamente tudo isso caiu por terra quando a Polícia Civil chegou ao suspeito.

Adolescente deixa carta antes de fugir com homem que conheceu no Discord. Foto: Polícia Civil.
Adolescente deixa carta antes de fugir com homem que conheceu no Discord. Foto: Polícia Civil.

Três dias de buscas

O caso foi registrado na Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA) de Anápolis, comandada pela delegada Aline Lopes. Durante as diligências, uma pista levou os investigadores a Araguatins, no Tocantins, mas a informação foi descartada: a adolescente vista na cidade era outra pessoa, com características parecidas.

O avanço veio pelo trabalho de inteligência sobre as conversas online. Os agentes identificaram o rapaz e o prenderam no próprio local de trabalho. Foi ele quem indicou o endereço do barracão onde a menina estava. Segundo a polícia, ele já havia alugado outra casa e pretendia se mudar para lá com a adolescente no fim daquela mesma tarde.

Imagens divulgadas do imóvel mostram um cômodo praticamente vazio, com um colchão no chão, uma cadeira e uma estrutura parecida com uma pia. Enquanto o suspeito trabalhava, ela ficava trancada, sem poder sair.

Um plano montado para não deixar rastros

O ponto mais revelador da apuração é o método. De acordo com a delegada, o suspeito orientou a adolescente a sair de casa entre 2h e 3h da manhã, quando a irmã dela dormia, e estudou com ela a posição das câmeras de segurança do bairro para escolher trajetos onde não pudesse ser filmada. Também instruiu a menina a se desfazer do próprio celular, para inviabilizar o rastreamento.

A promessa de mudança para o Canadá, segundo a investigação, serviu apenas para despistar as buscas. A adolescente não tem passaporte e, por ser menor de idade, não teria como viajar nas condições descritas. A análise do celular do suspeito não apontou nenhum indício de plano para deixar o país. A intenção era permanecer em Anápolis mesmo.

Nas palavras da própria delegada em coletiva, o rapaz descreveu ter elaborado um plano à prova de erros para que ela não fosse encontrada. Esse conjunto de instruções, o sigilo pedido à vítima e o isolamento da família são exatamente os sinais que especialistas em proteção infantil descrevem como aliciamento online.

Aos 13 anos, não existe consentimento

A adolescente foi localizada em boas condições de saúde, sem lesões e sem sinais de agressão física, segundo a Polícia Civil. Ela chegou a resistir ao resgate, mas aceitou ir à delegacia, onde reencontrou a família, e recebeu atendimento psicológico antes de ser entregue aos responsáveis.

A delegada Aline Lopes fez questão de reforçar um ponto jurídico que costuma gerar confusão: eventual concordância da vítima não descaracteriza o crime. O Código Penal brasileiro é taxativo ao tratar como estupro de vulnerável qualquer ato sexual com menor de 14 anos, independentemente de consentimento, namoro ou vontade declarada. O nome do suspeito não foi divulgado e a polícia não informou se ele constituiu advogado.

O Discord de novo no centro do debate

Procurada, a plataforma afirmou em nota que mantém sistemas de combate ao aliciamento e à exploração sexual, exige idade mínima de 13 anos para cadastro e oferece ferramentas de acompanhamento para responsáveis.

O caso chega em um momento delicado para a empresa no Brasil. Desde agosto, o Discord está sob processo de fiscalização da Agência Nacional de Proteção de Dados, que determinou a suspensão preventiva das transmissões ao vivo no país após a morte de uma adolescente de 13 anos em Naviraí (MS). A medida foi a primeira aplicação prática do ECA Digital (Lei 15.211/2025), em vigor desde março deste ano, e a plataforma chegou a apresentar à AGU um pacote de medidas de segurança para menores. O descumprimento da lei prevê multas de até R$ 50 milhões.

O ECA Digital obriga plataformas acessíveis a crianças e adolescentes a prevenir riscos de exploração e abuso sexual, adotar verificação de idade que não dependa de autodeclaração e disponibilizar controle parental claro. O caso de Anápolis mostra o outro lado da conta: a regra existe, mas o contato inicial acontece em conversas privadas, fora do alcance de qualquer moderação automática. O episódio realimenta o debate sobre segurança digital e sobre a responsabilidade das redes sociais na proteção de menores de idade.

Como denunciar

Situações de abuso, exploração ou aliciamento de crianças e adolescentes podem ser denunciadas pelo Disque 100, gratuito e disponível 24 horas por dia. Em casos de desaparecimento, o registro deve ser feito imediatamente na delegacia mais próxima, sem prazo mínimo de espera.

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